Uma das coisas que eu mais tenho orgulho de contar sobre o ensino médio é ter sido o responsável pela criação de um jornalzinho independente distribuído de graça na minha escola. Tudo bem que só existiram duas edições, mas a gente se divertia muito fazendo as matérias, divulgando, tirando foto… O texto abaixo, de agosto de 2007, é parte disso tudo, encontrei esses dias perdido entre os meus arquivos do computador velho e resolvi botar aqui, se liga.

A Rua Alcides de Queiroz fica em Santo André, grande São Paulo. Tem árvores, carros e consultórios de dentistas. Fica próxima ao centro do município e seria uma rua igual a tantas outras se a casa de número 161 não estivesse ali. Conhecida como Casa da Lagartixa Preta “Malagueña Salerosa”, o 161 abriga um espaço de cultura, experimentação e ócio que sobrevive graças a verdadeira sustentação do local: o espírito ativista presente em cada pessoa que faz parte daquilo.


Quando me vi em frente ao ponto de chegada (um muro azul cheio de graffitis e stencils) a ansiedade e o medo do desconhecido falaram mais alto. Entrar em uma casa, fora dos padrões estabelecidos (mais tarde viria a se tornar um dos lugares mais undergrounds do Brasil que se tem notícia) é de dar um certo frio na barriga a qualquer um; porém, esse friozinho logo foi substituído por outro sentimento, tão bom quanto, o de admiração.
Um cara alto de cartola, semi-calças risca-de-giz e dizeres anarquistas na jaqueta foi o receptor, alguns apertos de mãos e logo me dirigi a outro homem que seria o guia do passeio, seu nome é Diego, mora a 4 meses no coletivo.
Primeiro visitei a biblioteca, com um número razoável de livros e vídeos, uma parte de tudo isso vem de doações, a outra vem da rua. Diego exibiu o último achado do grupo: uma coleção enorme de dvds, que pode ser digerido por quem quiser, basta ter cara de pau e um cadastro.

Chegou a vez da sala do ócio, que resume bastante o espírito da coisa, de acordo com o rapaz: “É uma casa de vivência, pro povo que fica o dia inteiro com a mãe, com a vó e a tia e quer ficar num lugar sossegado sem sair de casa.” Conheci ainda a horta e o sistema de irrigação da casa, em que a água da chuva do vizinho cai em um galão enorme de armazenamento e serve para regar tudo o que plantado, além de ser a descarga do banheiro.
Antes de chegar ao local, pesquisei sobre a Casa e descobri que o projeto está ligado ao Freeganismo, prática que procura diminuir o superconsumismo desenfreado, a destruição ambiental, o desperdício e a exploração no mundo desenvolvido. O termo é derivado das palavras “free” (livre/grátis em inglês) e vegan. Vegans são pessoas que não consomem produtos de origem animal ou testados em animais enquanto os freegans não vêem nada moralmente superior em recusar comida grátis, mesmo que venha do lixo.
Essa é a descrição que encontrei na internet, mas a intenção era saber da boca de algum deles o que é ser Freegan. “Tudo o que você vai fazer e for um bagulho meio libertário, o pessoal quer te dar um rotulozinho, ainda mais aqui em São Paulo. O Brasil é um país de rótulos, então pro nosso almoço coletivo com frutas e plantas criou-se o rótulo de freegan” disse Diego.


Para manter o projeto em pé, a Casa oferece cursos que vão de Fotografia a como fazer um bolo de fubá, além de festas com cervejas à R$ 1,50. A última festa teve como tema os Gregos, porque segundo Diego “na Grécia as manifestações anarquistas não são parecidas com as da Paulista não, eles quebram banco, tacam fogo, uma guerra civil”; a intenção era criar a partir desse tema uma linha de discussão, e mais de 100 pessoas lotaram os cômodos do local.
“Tem outras casas tipo aqui?” perguntei, quando já estava quase na saída. “Olha, eu conheço outro coletivo lá na Bahia, mas casas comunitárias auto-digeridas estão acabando e a nossa é uma das últimas, o que a gente recebe muito é carta dizendo que tal coletivo acabou, mas antes tinham várias. Porque é foda manter, semana retrasada mesmo a polícia bateu aqui e a gente teve que mostrar tudo, mostrar que é uma casa de cultura e até explicar… o pessoal tem a idéia de que é uma casa, tem biblioteca, deve ser da prefeitura, mas não tem nenhuma relação com a prefeitura.” Depois de obter essas resposta, fui embora, satisfeito e certo de que, no dias de hoje, ainda é possível boicotar e fazer alguma diferença. O ativismo está vivo, o que basta é cada um achar a sua própria lagartixa, preta ou não.